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O mundo atrás da porta

Ela adorava conhecer os banheiros dos lugares em que ia. Parecia um mundo a parte. Como se abrir aquela porta fosse entrar num portal: menos barulho, menos estímulo e com uma certa sensação de proteção… a cabine fechada, sem janela, isolada do mundo.


Quando pequena, parecia que era uma brincadeira de criança.


Quando cresceu, era uma fuga. Uma pausa das interações e situações que eram desconfortáveis, uma redução do ruído externo (e da sua mente também).

E assim, o banheiro continuava sendo um mundo a parte. Um pequeno momento de descompressão.


Ela fazia isso voluntariamente. Mas ela só entendeu a complexidade disso quando atendeu uma paciente que disse: “eu procurava banheiros e não sabia o porquê”.


O som, as luzes, os cheiros, as interações sociais — tudo pode ser alto demais no autismo e na superdotação.


Quando o mundo é demais, o corpo busca menos.

E, às vezes, esse “menos” é um banheiro

um lugar onde se pode, enfim, respirar. E se autorregular.



Lívia Figueiredo



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