O peso que ninguém via
- draliviafigueiredo
- 22 de fev.
- 2 min de leitura

Ele tinha uma vida que parecia boa aos olhos dos outros.
Um bom casamento. Um emprego de destaque.
Um excelente profissional — muito conhecimento técnico e soluções criativas.
Assumia grandes responsabilidades, não só as suas. Cumpria metas, até aquelas em que não via sentido.
Enxergava com clareza as falhas nos projetos e nos planos da empresa, mas nem sempre podia corrigi-las.
Com o tempo, vieram o cansaço, o questionamento, o burnout.
Depressão, crises (que até então ele não sabia nomear como shutdown e meltdown).
Sua relação com a família se desgastou.
Pediu demissão.
Apagou o brilho.
Na busca por respostas, chegou ao diagnóstico de autismo e superdotação.
Mas só o laudo não melhorou sua vida.
E foi assim que ele chegou até mim: três anos sem conseguir trabalhar, sem dormir direito, sem motivação.
Muitos remédios. Carregando um peso excessivo na alma e no corpo
A primeira etapa do tratamento foi ajustar o suporte medicamentoso — reduzir as crises, estabilizar o humor, aliviar a ansiedade.
E, ao mesmo tempo, cuidar de outro pilar fundamental: o estilo de vida.
Melhorar o sono. Retomar a atividade física. Cuidar da alimentação.
Reconstruir o vínculo com a família.
E ele foi melhorando.
Se conhecendo.
Entendendo seu modo de funcionar.
Com o direcionamento certo, encontrou motivação para começar um esporte.
O esporte virou hobby. E depois, muito mais:
virou cuidado, equilíbrio, desenvolvimento de habilidades sociais, autoestima e senso de autoeficácia.
Aos poucos, reduzimos os medicamentos — mantendo a boa resposta.
A relação familiar se fortaleceu.
Ele voltou a trabalhar.
Mas não mais tentando caber no molde que o adoecia.
Agora, com liberdade. Fazendo consultorias, no seu ritmo (sempre rápido, devo dizer), com excelência — e dizendo não ao que não faz sentido.
Hoje, deixou pra trás um grande peso: 16 kg a menos no corpo, e muito mais na alma.
Um medicamento já foi suspenso. Outro está sendo retirado.
Ele chega feliz ao consultório. Me abraça.
E a melhora é visível.
Ainda há desafios — como lidar com o tédio entre um projeto e outro, com a sensibilidade aos estímulos.
Mas o maior deles agora é outro:
se preparar para a primeira competição no esporte que passou a amar.
Receber um laudo de neurodivergência e ter um tratamento adequado muda vidas.
E é uma honra ser médica de tantas pessoas incríveis.
Lívia Figueiredo

Comentários