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O peso que ninguém via


Ele tinha uma vida que parecia boa aos olhos dos outros.


Um bom casamento. Um emprego de destaque.


Um excelente profissional — muito conhecimento técnico e soluções criativas.


Assumia grandes responsabilidades, não só as suas. Cumpria metas, até aquelas em que não via sentido.


Enxergava com clareza as falhas nos projetos e nos planos da empresa, mas nem sempre podia corrigi-las.




Com o tempo, vieram o cansaço, o questionamento, o burnout.


Depressão, crises (que até então ele não sabia nomear como shutdown e meltdown).


Sua relação com a família se desgastou.


Pediu demissão.


Apagou o brilho.




Na busca por respostas, chegou ao diagnóstico de autismo e superdotação.


Mas só o laudo não melhorou sua vida.


E foi assim que ele chegou até mim: três anos sem conseguir trabalhar, sem dormir direito, sem motivação.


Muitos remédios. Carregando um peso excessivo na alma e no corpo




A primeira etapa do tratamento foi ajustar o suporte medicamentoso — reduzir as crises, estabilizar o humor, aliviar a ansiedade.


E, ao mesmo tempo, cuidar de outro pilar fundamental: o estilo de vida.


Melhorar o sono. Retomar a atividade física. Cuidar da alimentação.


Reconstruir o vínculo com a família.




E ele foi melhorando.


Se conhecendo.


Entendendo seu modo de funcionar.




Com o direcionamento certo, encontrou motivação para começar um esporte.


O esporte virou hobby. E depois, muito mais:


virou cuidado, equilíbrio, desenvolvimento de habilidades sociais, autoestima e senso de autoeficácia.




Aos poucos, reduzimos os medicamentos — mantendo a boa resposta.


A relação familiar se fortaleceu.


Ele voltou a trabalhar.


Mas não mais tentando caber no molde que o adoecia.


Agora, com liberdade. Fazendo consultorias, no seu ritmo (sempre rápido, devo dizer), com excelência — e dizendo não ao que não faz sentido.




Hoje, deixou pra trás um grande peso: 16 kg a menos no corpo, e muito mais na alma.


Um medicamento já foi suspenso. Outro está sendo retirado.


Ele chega feliz ao consultório. Me abraça.


E a melhora é visível.




Ainda há desafios — como lidar com o tédio entre um projeto e outro, com a sensibilidade aos estímulos.


Mas o maior deles agora é outro:


se preparar para a primeira competição no esporte que passou a amar.




Receber um laudo de neurodivergência e ter um tratamento adequado muda vidas.


E é uma honra ser médica de tantas pessoas incríveis.




Lívia Figueiredo



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